Prezados investidores,
O mês de março foi marcado por diversos ruídos e poucos desenvolvimentos no campo geopolítico e econômico global. Tanto as discussões sobre imposições de tarifas não progrediram como foram postergadas para o começo de abril, como muitos ruídos e narrativas conflitantes têm cercado os desenvolvimentos no campo geopolítico. Nesse sentido, como no mês passado, vamos focar mais em dados macroeconômicos enquanto esperamos sinais mais claros dos líderes globais.
Estados Unidos
Nos Estados Unidos, março manteve o foco em uma economia resiliente apesar de incertezas políticas, especialmente em torno de tarifas e seus impactos inflacionários. O relatório de empregos de fevereiro, divulgado em março, mostrou criação de 151 mil vagas, com a taxa de desemprego estável em 4,1%, refletindo um mercado de trabalho sólido. Contudo, a inflação permaneceu elevada, com o CPI de fevereiro subindo 0,2% no mês e 2,8% anualmente, e o núcleo (excluindo alimentos e energia) em 3,1%, impulsionado por custos de moradia (alta de 4,2% em 12 meses). O Federal Reserve manteve as taxas em 4,25%-4,50% na reunião de março, sinalizando dois cortes potenciais em 2025, provavelmente em junho e dezembro, mas revisou projeções mostrando crescimento do PIB em 1,7% para 2025 e inflação do núcleo PCE em 2,8%, refletindo pressões tarifárias. O índice do dólar fechou para baixo, próximo a 104, em grande parte como reação ao movimento no Euro. Já nas treasuries, com yields de 10 anos próximos de 4,3%, tivemos mais um mês de queda nas taxas. As ameaças de tarifas sobre bens da Europa e Ásia adicionaram ruídos aos mercados, com analistas divididos entre inflação e possíveis acordos comerciais. Em suma, mercado ainda parece muito dividido com relação ao curto e médio prazo da economia americana, o que elevou a volatilidade, e causou uma forte queda na bolsa.
Europa
Do outro lado do Atlântico, o cenário europeu em março trouxe sinais mistos, com desafios de crescimento persistentes. O PMI composto de fevereiro ficou estável em 50,2, mas dados preliminares de março indicaram uma leve queda para 49,8, sugerindo nova contração, impulsionada pela fraqueza manufatureira em meio a ameaças tarifárias dos EUA. O crescimento do PIB da zona do euro no 1º trimestre foi estimado em 0,2%, pressionado por investimentos fracos e exportações, com a Alemanha particularmente afetada. A inflação suavizou ligeiramente, com taxa geral de fevereiro em 2,5% e núcleo em 2,7%, mas a inflação de serviços permaneceu pegajosa em 3,8%. O BCE cortou as taxas em 25 bps para 2,25% em março, conforme esperado, mas a comunicação tornou-se mais hawkish, citando riscos de incerteza política comercial. Nossa visão é que o BCE provavelmente pausará mais cortes, mirando uma taxa neutra de 2% até o fim do ano, mas fragilidade estrutural e riscos tarifários limitam a recuperação. No entanto, o grande evento do mês foi o anúncio de alguns governantes europeus de que cerca de 500 bilhões de euros seriam investidos no rearmamento do continente, fazendo com que o mercado precificasse esse enorme possível fluxo nos principais ativos de risco. Com isso, tivemos um movimento muito forte de alta no yield dos títulos da dívida alemã (antecipando um grande montante de emissão), uma grande alta no euro (antecipando esse fluxo financeiro saindo de outras moedas e comprando a local) e uma grande alta da bolsa (que seria beneficiada por esse aumento dos gastos que poderia refletir positivamente nas economias locais). Acompanhar de perto essa discussão – dado que existe resistência dentro da Europa quanto a essa postura mais beligerante e pelo fato dos líderes que anunciaram hoje em dia estarem experimentando altas taxas de desaprovação – faz com que nada disso seja certo.
China
Na Ásia, os dados de março na China mostraram o PMI manufatureiro em 50,5, a expansão mais rápida em um ano, acima de 50,2 em fevereiro, apoiada por medidas de estímulo e fortes novos pedidos. O PMI não manufatureiro subiu para 50,8, refletindo ganhos em serviços e construção. Apesar disso, preocupações com crescimento persistem, com o PIB do 1º trimestre estimado em 4,8%, abaixo da meta de 5%, em meio a consumo doméstico fraco e pressões de exportação devido a tarifas dos EUA iminentes. Pequim respondeu com sugestões de mais estímulos no Congresso Nacional do Povo em março, focando em suporte ao crédito e subsídios industriais. Contudo, a ameaça de tarifas adicionais mantém as autoridades em alerta, com impactos potenciais em setores exportadores. Vemos uma recuperação frágil, dependente de apoio político em um ambiente comercial global desafiador. Ao que parece estão aguardando, discretamente, o que o governo americano vai fazer com relação a política de tarifas global.
Japão
No Japão, o Banco do Japão (BOJ) manteve as taxas em 0,25% em março, após o aumento de janeiro, com dados de inflação mostrando CPI núcleo em 2,4% em fevereiro, acima da meta, impulsionado por repasses salariais. O iene se valorizou ligeiramente, subindo 1% contra o dólar, refletindo confiança na normalização monetária. Dados de PMI de março para manufatura subiram para 51,0, indicando expansão, apoiada por demanda global estabilizada. O BOJ permaneceu cauteloso, com planos de possíveis altas laterais em 2025, caso negociações salariais na primavera mantiverem a inflação de forma sustentável. Foco doméstico cresceu, com iene e taxas potencialmente firmes se os dados se mantiverem favoráveis, embora riscos tarifários externos possam moderar otimismo.
Brasil
No Brasil, a inflação do IPCA de fevereiro subiu para 0,7%, elevando expectativas anuais para 5,8% em 2025, impulsionada por serviços e alimentos. O Banco Central manteve a Selic em 13,25% em março, após alta de 100 bps em fevereiro, com guidance sugerindo pausa a menos que pressões inflacionárias intensifiquem. Dados de atividade mostraram vendas no varejo caindo 0,3% em janeiro (divulgado em março) e produção industrial contraindo 1,0%, sinalizando desaceleração econômica. Debates fiscais continuaram, com o Congresso discutindo reformas tributárias em meio a resistências, elevando riscos de deslize fiscal. Nossa perspectiva permanece cautelosa, com crescimento esperado em 1,5% para 2025, limitado por taxas altas e incerteza. Durante o final do mês, depois de alguns problemas de comunicação e ruídos em tornos do Banco Central, o mercado voltou a colocar prêmio na parte longa da curva de juros, dando a entender desconfiança com relação à atitude que essa diretoria teria com relação à inflação. Nesse sentido, as próximas comunicações e decisões serão fundamentais para o mercado entender quem de verdade é esse COPOM, uma vez que até esse mês as decisões estavam contratadas. Esse diagnóstico vai ser extremamente importante na definição da inclinação longa da curva de juros brasileira.













































